E o rio tá aqui. Passando.

(…) uma prática, diríamos, que faça justiça a força constante” – João Perci Schiavon

Análise. Dizem: pra quê? Pra que Falar? Diríamos: A questão é por onde passa? Por onde você a sente? A força constante. Não sente? Ah sim. E esse nó que de vez em quando aparece na tua garganta? Ah claro, você diz que é a mudança do tempo. E essa pressão peito? Você jura que é coisa da idade. Diz que é por que a vida anda corrida. Mas o que é isso aí que te atravessa? Me atravessa? Como assim? Calma. E essa prisão de ventre, esses dias todos sem ir no banheiro? Sim, o nutricionista te receitou mais mamão. Você já comeu tudo que podia. E continua trancado. É muito curiosa essa coisa de ficar trancado. A gente se tranca muito. A gente tranca a força que quer passar. A gente aprende a ficar trancadinho dentro do nó que somos. Arma toda nossa casa em volta do nosso nó. Cerca e tudo. Ah que bonitinho, esse nó fechadinho vai tendo nosso cheirinho, vamos criando apego por esse nó. Na parede do nosso quarto íntimo ficam os quadros: os discursos  que enquadramos. Discursos que as vezes nos chegam através de mamãe e papai. Mas se abrimos bem suas bocas vemos que há um túnel que liga suas vozes ao auto-falante de uma praça. Ah que bonitinho, esses porta-retratos gigantes na estante. Cheios de imagens. Cada mural nomeado conforme as imagens uma do lado da outra: “lembranças/delírios de quando me senti suficiente para mamãe e papai”, “lembranças de quando descobri que não era e que eles tinham outras coisas pra fazer”, “projetos de quem devo ser para conquistar a onipotência (nota: único jeito de tentar compensar minha terrível “existência faltosa” que às vezes chamo de falta de autoestima).” Espera. O que? Por que você está falando desse jeito? Isso é um desrespeito a minha história? Está falando mal de mamãe e papai? Não. Não estou não. Estou te provocando a pensar: onde você mora? Onde você tem morado? Agora. Como é que você cuida do teu nó? Espera. Conheço uma pessoa que a mãe abandonou bem cedo. Quase não teve suporte. Se lascou muito. Ele anda sempre olhando pro alto. Parece que não tem nó. Sem amparo o nó é outro. A cada vez o nó é outro. Independente do que a gente recebe, se a gente quiser existir vai ter que se perguntar : como é meu nó? O que do meu nó me enxerta no mundo-cultura? O que do meu nó me exclui do mundo-cultura?E como? Ah que bonitinhos. Olha, nossas fotos. Você lembra dessa época? Nós na fila esperando nossa hora de entrar ativamente na máquina. Máquina? A máquina capitalista. Dai me dai me a força que passa pelo teu nó. Dai me dai me a tua força vital e te dou algumas moedas. A máquina fica cantando com sua voz robótica. As vezes o nó facilita a entrada do corpo no corpo-da-empresa que fica dentro do corpo-da-cultura. São muitos setores. Pois é. Já vi muitos corpos tão dentro da máquina que nunca se interessaram em saber do seu nó. Até adoecer. Alguns nem assim. Mas muitas vezes o nó aperta tanto. Fica tão difícil de sustentar o nó. Mesmo não querendo saber dele, se tenta escapar dele. Ah é? Tem gente que não aguenta mais o nó lhe fazendo ser uma identidade-pessoa. Uma identidade-pessoa inspirada no mural “projetos de quem devo ser para conquistar a onipotência”. Uma identidade-pessoa controlada por instâncias militares internas que ao mínimo “deslize” lhe dá consecutivas chibatadas. Tem gente que sente o peso de ser uma “identidade-pessoa” de um jeito tão doloroso, que tenta não ser. Que tenta desaparecer. Que tenta encontrar um sono. Um corpo-de-coma. Uma cápsula onde se pode ficar entre a vida e a morte. Mas o nó continua lá. Apertando. Às vezes, em alguns corpos, o tipo de nó facilita a entrada na poesia, por favor exemplo. Ah é? Sim. Mas também há os que inundados pela poesia não conseguem se arrematar na forma de pessoa. Há poetas na terra , há sim, mas muitos que não conseguem pisar na terra. O poeta que sente a força das entranhas do nó também precisa encontrar jeitos de dar lugar ao seu nó, como pessoa no mundo. Entre ser uma identidade-pessoa-apertada-no-mundo-cultura e um poeta-exilado-fora-do-mundo-cultura, o que é possível? Que coisa incerta isso de ter um nó. É. Qualquer Um que tenha um nó vai ter que lidar com ele. Com as condições que tem. Cada nó é muito singular. Se a gente pega um nó pra dissecar, nossa que coisa bonita, vê tantas linhas, tantas, fios dos mais variados, conexões inéditas e inóspitas. Um nó é um arranjo subjetivo pelo qual vivemos. As vezes ele fica calejado, de tanto funcionar de um único jeito. Todos os outros que nos habitam coexistem nesse nó. Há muitos povos entrelaçados em nosso nó. Ah é? Há muitos dentro do nosso Um. Que loucura. Tudo depende de como a gente se compõe com esses outros. Mas tem uma coisa. O que? Tem algo que entra no nó mas que é mais que ele. O que? Põe a mão no teu peito. Tá. Escuta essa batida. Essa batida é o anúncio da força. Digamos, seu cartão de visita. Que força? A força que passa pelo nó. A força que passa pelo nó é um rio. Um rio? O nó é como a margem da força. E todo mundo tem esse rio? Tem. Mas alguns não sabem que tem. Por que? Por que não estão interessados em cuidar desse rio. Ah então você está dizendo que tenho um nó feito de vários fios, onde há muitos povos entrelaçados, um nó arranjado como nenhum outro, que há um rio que entra no nó mas é mais que ele, um rio que passa pelo nó, e que ainda é preciso cuidar do rio? Que história é essa? É a história de existir. Ou talvez, a tarefa? Que todo mundo tenha um rio que passa pelo nó, é só começo. Não garante nada. Muitas vezes vive-se uma vida inteira sem escutar o barulho do rio. Muitas vezes vive-se a vida inteira sem o desfrute de sentir o rio, sem que o corpo o visite. Descobrir o rio é um começo para que se possa untar os pés nessas águas, como quem quer aprender a andar. Aliás. O rio não chega ao nosso corpo se não vamos até ele. Se não permitimos o abalo que ele traz. O rio não chega em nosso corpo se não temos alguma curiosidade e disposição ao cuidado. Do nó e do rio. O rio enquanto passa modifica a margem. Modifica o nó. O modo como o rio passa sempre tem influência no modo como é o nó. Tem nó que nunca quis notícias do rio. Nó seco. Margem endurecida. Tem nó que sente o rio tão forte, tão forte, que as vezes arrebenta. Tem nó arrebentado que nunca mais amarrou. Passou água demais, rápido demais. A margem se misturou com o rio. Essa coisa de rio e nó tem seus perigos. É. Tem nó que vai se dando conta disso e se interessando em se perguntar: como é a minha amarração? Olha só essa casinha que tenho construído em volta do meu nó. Ai nó você assim tão fechadinho tem meu cheirinho. Não fica chateado não. Mas a gente vai ter que abrir mais espaço pro rio. Nó, deixa eu te contar uma coisa: o rio sempre esteve aqui. O rio sempre passou. Mas a gente não percebia ele. Muitas vezes a gente não cuidou do rio, nó. A gente deixou ele ir passando de qualquer jeito. Lembra de um dia que o coração ficou tão agitado que a gente pensou que era infarto? Pois é, nó, não era. Era o rio. Era o rio esse tempo todo querendo fazer contato. O rio é vivo, nó. Ninguém para o rio, nó. Olha, nó, o rio tá passando. O rio tá apontando a direção por onde ele vai. Do ponto de vista do nó fechadinho, algumas direções pra onde o rio aponta são pura loucura. Ai esse rio des-inventando moda. Ai esse rio inventando vida. Olha como esse rio tem ritmo. Tem ritmos. Vamos nó, a gente pode tentar dançar enquanto o rio passa. A gente vai ter que cuidar desse rio nó, se não a gente morre de sede. Se não a gente morre de tédio. A gente precisa de água todo dia nó. Todo dia. E o rio tá aqui. Passando. As vezes é difícil ver pra onde ele tá fazendo a curva. Eu sei nó, que as vezes é difícil pra você. Você se desespera. Você acha que vai morrer, acha que tá fazendo tudo errado, que não existe porra nenhuma de rio e que tudo é só deserto. Calma nó. Sente o rio. Sente. Sente. SENTE. É pelo que a gente sente que o rio desemboca. Inclusive em palavras na nossa boca. É pelo que a gente sente que o rio vem. É pelo que a gente sente que o rio fala. Escuta o rio, nó. E te escutará melhor enquanto nó. Escuta o rio, nó. O rio é vivo. O rio tem força. O rio é a força. Tenta se mover com ele passando. Pra onde você vai enquanto nó, quando sente o rio que passa? O que você faz? O que você decide? Escutar o rio é decidir o que a gente faz com essa força. Escuta o rio nó. Escuta.

Análise: uma prática de escuta do rio. E do nó. E do cuidado que o rio pede ao nó, a cada vez.

Náthalia Noronha

Livros presentes nessa composição e sugeridos:

  • Pragmatismo Pulsional – João Perci Schiavon
  • Recusa do não-lugar – Juliano Pessanha
  • Desaparecer de si – David Le Breton
  • Tudo é rio – Carla Madeira

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